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Cultura

Risco de desmoronamento da cobertura da Sé de Silves: história repete-se 150 anos depois!

Foto
d.r. Ver Fotos »
Imagem antiga da Sé de Silves

Em 1853, o Algarve foi, uma vez mais, alvo dos efeitos nefastos de um sismo, cujos prejuízos se fizeram sentir a nível das infra-estruturas regionais, nomeadamente nos monumentos. No caso concreto da antiga Sé de Silves e da Matriz de Albufeira, os templos ficaram bastante danificados, essencialmente a nível das coberturas.

TEMAS: História e histórias do Algarve

Na época, apesar dos diferentes esforços para as recuperar, tal tarefa revelar-se-ia árdua e difícil. As populações humildes e as autarquias desde sempre depauperadas economicamente e sem quadros técnicos, pouco ou nada podiam fazer.

Restou-lhes uma alternativa: o poder central. Foi Joaquim Mendes Neutel, deputado pelo círculo de Silves, quem, entre 1862 e 1864, levou o assunto por diversas vezes à Câmara dos Deputados, na capital do reino.

Na Sessão de 18 de Fevereiro de 1862, o deputado Neutel dirigiu-se desta forma à Assembleia: «Creio que, no mês passado, a Câmara de Silves representou ao governo via Governador Civil de Faro, sobre a necessidade que havia de se remediar um mal, que é o estado em que se acha a igreja matriz da cidade de Silves».

«Este templo, que é importante, está em grande ruína, essencialmente depois do penúltimo tremor de terra; o tecto tem grandes fendas e podem acontecer grandes desgraças, porque o povo pode estar em algum dia na igreja a assistir aos actos divinos, e de repente, o tecto ou outra parte deste edifício desabar, como é fácil pelo estado de ruína em que se acha». Ontem como hoje…

«É para evitar estas desgraças, é para evitar que esta igreja se arruíne de todo, que os habitantes de Silves desejam que a igreja se arranje e componha, para o que não tem dúvida em concorrer com alguns meios», continuava o deputado silvense.

«Mas não sabendo mesmo até que ponto pode chegar a despesa precisa para essa obra e se os meios chegarão, pediam que o governo houvesse de lhes dar um subsídio para esta obra. Mas em primeiro lugar que o governo mande ali um homem de arte, um engenheiro, para observar e examinar o estado do edifício, ver a obra de que carece e fazer o competente orçamento da despesa, para os habitantes verem aquilo que podem dar, e saber-se o subsídio que o governo poderá igualmente dar», acrescentava Joaquim Mendes Neutel.

«É isto o que peço ao Sr. Ministro. (...) Igual exigência fez há tempo um colega meu, a respeito da igreja matriz de Albufeira, que ficou muito arruinada com o penúltimo tremor de terra, e carece de ser consertada e reparada, senão podem acontecer ali grandes desgraças. Peço a solicitude do Sr. Ministro das Obras Públicas sobre este objecto e espero do seu zelo pelo serviço público e ao mesmo tempo da sua bondade que atenderá ao pedido que lhe dirijo», conluia.

A resposta do então Ministro das Obras Públicas não podia ser mais elucidativa: «Parecem-me justas as reclamações do Sr. deputado, e até muito louváveis os seus desejos; mas infelizmente, pelo Ministério das Obras Públicas, há uma grande dificuldade em se poder obstar aos inconvenientes que S. Ex.a acaba de apontar. (...) Repito, porém, que pelo Ministério a meu cargo, dificilmente se poderão levar a efeito tais obras sem que o subsídio venha de outra parte, porque a verba respectiva do orçamento é muito pequena. (...) Mas não tenho dúvida alguma em mandar ordem para se fazer o orçamento». Ontem como hoje…

A 2 de Junho de 1862, o deputado Neutel volta a trazer a Sé de Silves à Câmara dos Deputados: «Mando para a mesa uma representação da Câmara Municipal de Silves, em que pede que esta câmara autorize o governo a dar à mesma Câmara Municipal alguma coisa para a reparação da matriz, templo muito majestoso e antiquíssimo, e que pelo estado de ruína em que está, pode um dia cair e causar grande prejuízo às pessoas que ali vão ouvir missa, o que é realmente uma vergonha para a Nação, porque é, como disse, um templo de forma gótica, majestoso e muito antigo».

O deputado continuava dizendo que «a Câmara de Silves poderá dispor de 900$000 réis a 1:000$000 réis para os reparos desta igreja, mas não pode ir mais além; e por isso pede a esta câmara que autorize o governo a despender até à quantia de 2:000$000 réis para poder fazer-se aquela obra; e de mais a mais a câmara nas suas reflexões, pede que se tenha em consideração o poder desabar aquele edifício, pelo que se assim acontecer, talvez ficarão debaixo das suas ruínas milhares de fregueses. Por estas considerações pede à câmara que tenha em devida conta isto mesmo que alega, para ver se acaso pode ter o que espera».

Contudo, no início de 1864, a situação mantinha-se inalterada, de tal forma que Joaquim Mendes Neutel volta a intervir na Câmara, a 13 de Fevereiro de 1864: «Mando para a mesa um projecto lei, que tem por fim autorizar a verba de 1500$000 réis para a reparação da igreja matriz de Silves, que está em total estado de ruína, o tecto daquela igreja ficou ameaçando cair de todo. (...) Já se fez o orçamento e a despesa está calculada em 3000$000 réis. A Junta da Paróquia não pode despender mais de 1500$000 réis, falta o resto, e é a isto que eu pretendo atender pelo meu projecto. Aquela igreja é monumento. Foi mesquita de mouros, serviu de catedral noutros tempos e tem recordações gloriosas».

Finalmente, a 30 de Abril de 1864 e após as Comissões de Fazenda e Obras Públicas examinarem o projecto de lei que tinha por fim autorizar o governo a comparticipar as obras de reparação da Matriz de Silves, é reconhecida a «necessidade de evitar-se a ruína total desta igreja, notável pela sua arquitectura e gloriosa pelas suas recordações».

Assim, na Sessão de 2 de Maio de 1864, «da verba destinada para a reparação de edifícios públicos será designada a quantia de 1500$000 réis para ajudar a reparar a igreja matriz de Silves que está a desabar».
As obras ter-se-ão iniciado pouco tempo depois, onze anos após o sismo de 1853 e depois de dois anos de pressão exercida pelo deputado Neutel.

Há cerca de 150 anos, a voz do então deputado pelo círculo de Silves Joaquim Mendes Neutel ecoou por diversas vezes na Câmara dos Deputados em Lisboa, alertando o governo para o estado de ruína em que se encontrava a antiga Sé Catedral do Algarve.

Mas se Silves era então um meio retrógrado e rural, nada fazia prever que cerca de 150 anos depois a mesma história se repetisse. Acontece que Silves é hoje uma das cidades mais visitadas do Algarve, pelo chamado turismo cultural de alto poder de compra.

É pois inconcebível que a antiga Sé esteja a ruir. O Algarve e os silvenses não podem aceitar tamanha injúria do Ministério da Cultura e do Governo em geral, para um monumento ímpar e único como é a antiga Sé Catedral do Algarve.

A Câmara Municipal de Silves, o Governo Civil de Faro, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional, a Região de Turismo, a Grande Área Metropolitana e a população em geral devem unir esforços para pôr cobro a tamanha indignidade que se está a cometer contra o nosso património e contra todos nós em particular.


*Investigador de História Local e Regional

1 de Abril de 2008 | 10:00
Aurélio Nuno Cabrita*

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