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Tribuna Livre

Casimiro de Brito, poeta do pleno e do vazio?

Em Loulé, realizou-se (18 de Novembro passado) uma conferência sobre Casimiro de Brito, no âmbito de Faro Capital Nacional da Cultura 2005.

Álvaro Manuel Machado, conferencista convidado, traçou um excelente perfil da obra poética e literária do poeta, em torno da ideia central de pleno e de vazio, que considera serem as marcas filosóficas de Casimiro.

Aproveitei essa deixa, no final da conferência, para metaforicamente sublinhar o contraste entre a vasta e qualitativa obra do poeta e o número de pessoas na sala (seis ouvintes e mais três pessoas da organização).

Casimiro, sendo louletano, não é conhecido em Loulé. Ou melhor, é conhecido por uma minoria pouco significativa de gente ligada à cultura. Aliás, entre a terra e ele há ainda muita coisa por esclarecer.
E, notoriamente, estamos perante um fenómeno de rejeição recíproca, muito mais por obra da terra do que pela obra do poeta. Digo eu. Sobre este assunto, aliás, já tive oportunidade de o referir e escrever bastas vezes.

É o poeta que nos esclarece, quando a certa altura num poema refere:
«(...)e eu um louletano com milhões de sonhos/ tão longe e tão perto na escala do tempo/Loulé minha terra natal/tão longe e tão perto de mim/como és grande e pequena Loulé assim».

Perceberá o leitor, se for procurar os muitos livros editados de Casimiro, nas livrarias (ou na única livraria com esse nome) da cidade ou pesquisar o seu nome na Biblioteca Municipal Sophia de Melo Breyner Andresen, em Loulé. No primeiro caso, nada se encontra. No segundo, não sei se já está disponível ao leitor alguma obra. Há um ano nada estava.

Por ter sido desde sempre aceite e acolhido em Faro, o poeta assume um relacionamento mais directo com a capital, onde os seus livros se encontram nas prateleiras de poesia da Biblioteca Municipal António Ramos Rosa, poeta farense e seu companheiro de lides poéticas.

O próprio Casimiro de Brito dirigiu colecções de poesia em Faro, nos anos 60, e mais recentemente nos anos 90 (desta vez a convite da Câmara de Faro, no âmbito da promoção da biblioteca local).

Mas a conferência teve outro dado esperado. Álvaro M. Machado assentou o ponto de partida poética do autor no movimento da Poesia 61, em Faro (anos 60), em torno dos célebres «Cadernos do Meio Dia».

Percebe-se que se mantém, ainda, muito pouco conhecida, portanto, a experiência de Casimiro de Brito em Loulé. Foi na sua terra natal que, em 1956, lançou a página literária «Prisma de Cristal» na Voz de Loulé, em torno da qual se juntaram Ramos Rosa, Gastão Cruz, Maria Rosa Colaço e muitos outros.

Entre 1956 e 1959, Casimiro de Brito deu corpo ao chamado Movimento Prisma, publicando textos e poemas de Afonso Cautela, Eduardo Olímpio, Emiliano da Costa, Vicente Campinas, poetas africanos, brasileiros e espanhóis, para além dos nomes referidos atrás.

E foi no seio desta experiência pioneira e primacial que Casimiro de Brito escreveu e publicou também os seus primeiros poemas: 12 poemas em nove números do Prisma, para além de duas quadras premiadas em Jogos Florais, estas assinadas como Cavaco Correia – os seus dois outros nomes.

Este período foi, ainda, fértil no lançamento de vários cadernos de poesia, como o «Encontro», o «Convívio» e o «Caderno Zero».

No corolário deste processo de construção poética, Casimiro de Brito publica o seu primeiro livro, em 1958, «Poemas da Solidão Imperfeita», com poemas escritos entre 1955 e 1958.

No próximo ano, 2006, passam 50 anos do aparecimento do «Prisma de Cristal». Tempo para encontrar formas de comemorar condignamente o evento. Casimiro de Brito merece-o. E Loulé tem essa dívida!


*professor da Escola Superior de Educação da Universidade do Algarve

24 de Novembro de 2005 | 16:42
Helder Faustino Raimundo*

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