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Tribuna Livre

A Capital, resgata ou afunda?

Sim, a Capital da Cultura acabou em Faro. E eu, que estou tão farto de bater no ceguinho, ganho um apetite voraz pela coisa.

O pão e o circo levantaram alas, e agora muita gente faz balanços e contas: quantos espectáculos e espectadores, qual a média por concerto, quais os perfis e as motivações.

Já agora, quantos almoços servidos, quantas senhas de gasolina pagas, quantos sacos de cimento gastos no Teatro Municipal, quantas horas de espera, quantos programas impressos?

Tudo isto serviu para resgatar o Algarve da marginalidade cultural, comissário dixit. Eu rio-me! Eu prefiro continuar marginal.

Digam lá se não é melhor ser marginal, em Alcoutim, em Loulé, em Cachopo, em Pechão, vivendo o quotidiano entre quadros de Miró, palavras de Pessoa, músicas de Vivaldi?

Pois, pois, os algarvios são agora a fina flor dos novos públicos da cultura, uma espécie de consumidores culturais de elite, aqueles que enchem teatros e cinemas, bibliotecas e conservatórios.

Uma espécie de arruaceiros da bola (mas bem comportados) que se sentam a ver e ouvir os produtores de cultura e, no fim da festa, descortinam prazeres e consequências estéticas. Mas, trôpegos e falhos regressam logo ao ramerrão da sua vivência: novelas, concursos e futebol, à espera do próximo evento de resgate.

Para seu bem têm, a bater-lhes à porta, os velhos amigos (os agentes culturais esquecidos) que dia-a-dia vão construindo peças de teatro, fazendo o ensino da música, lendo e editando poesia, contando histórias e contos, ensaiando músicas e cantos, discutindo filmes.

Esses amigos estão cá sempre, presentes em vãos de escada, em casas caídas, em praças e jardins, todo o ano, todos os anos.

Em 2005, estiveram cá, apesar de se ter falado pouco deles, na Capital. E depois dela, eles vão continuar a fazer os seus trabalhos de Hércules: levar a palavra ao Algarve. Esses, os amigos, resgatam verdadeiramente. A Capital afunda!



*professor da Escola Superior de Educação da Universidade do Algarve

19 de Janeiro de 2006 | 15:49
Helder Faustino Raimundo*

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