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Pode o rio Arade ser um deserto que doa a alma?
A minha primeira ideia do Arade era a do rio que desaguava nas pedras, lá para a ponta da areia na Praia da Rocha.
Ali em frente de Ferragudo, terra de lamas, de fábricas e de um convento secreto.
Mais tarde comecei a perceber que o rio Arade não nascia ali, ao pé da minha casa. Vinha de longe, provavelmente de muito longe, pois de vez em quando trazia as laranjas de uma terra distante, que eu não conhecia, mas saboreava, depois de as limpar da terra argilosa que deixava esculturas de barro nos dedos.
Comecei a perceber que aquele rio pardacento que refrescava o meu corpo nos verões de Portimão, vinha das serranias abruptas do Algarve, mas deveria ser adocicado por culturas tão antigas quanto belas nalguma cidade da moirama.
Na escola fui entendendo melhor, até que ela mesmo me transporta para Silves, para conhecer as cadeiras da secção preparatória que me retornaria ao liceu da minha terra.
De longe, preferi aos bancos da escola os humores do rio. Todos os dias o atravessava – na ponte medieval que os saudosos românticos arabizavam – cheirando o perfume das laranjeiras de pés molhados enterrados no leito do rio, na quinta do mata-mouros, pois então.
Habituei-me a roubar laranjas nos paralelos das margens do rio, que naquela altura não podia atravessar a vau, só de barco.
Muitas vezes olhava e ajudava na pesca da eiró, pendurada nos pandulhos de rede ensardinhada que os velhos pescadores – operários corticeiros de outrora – dependuravam no cais do rio entre a dita ponte e a paragem da camioneta da estação.
Com esta brincadeira fiquei dois anos em Silves e se escolhi jogar futebol no Silves Futebol Clube foi também por culpa do rio.
Nos treinos sentia o cheiro das águas, as mesmas que corriam até à minha casa e que me encontravam no dia seguinte, de manhã, quando rumava de novo à cidade.
Os meus passeios não ignoravam as ladeiras de calcário ou os pós de grés do castelo, mas os meus passos, inelutavelmente, desciam para aquelas águas curiosas e secretas.
Muito, muito mais tarde, desci o rio, de canoa. Foi ela que me levou rio abaixo até às velhas fontes de Estômbar. E no dia seguinte me transportou rio acima até à cidade de Silves.
Depois, passei debaixo da ponte e terminei no pego fundo, onde em tempos idos tinha mergulhado de cima duma velha nogueira marginal. Para lá dela, a canoa não passava: um reles fio de água, silvas, lodos.
É o que o rio Arade é hoje em dia: um reles fio de água, silvas, lodos, porcaria. Matar o Arade é matar a cultura árabe. Exagero? Sem o Arade o que cantariam os poetas de Silves? Não foi o deserto que os encantou! O deserto é o destino dos desterros de Silves, terra do rio e das águas santas que nunca se esquecem.
Pode o rio Arade ser um deserto que doa a alma?
*professor da Escola Superior de Educação da Universidade do Algarve
30 de Março de 2006 | 14:06
Helder Faustino Raimundo*
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